quinta-feira, 23 de junho de 2011
De tudo ao meu amor serei atento...
Para além da falta que sentia restava a dúvida, teria realmente existido?
Adormeceu no chão em meio a cinzas de cigarro e taças vazias.
terça-feira, 21 de junho de 2011
Anatomia
Por que para escrever é preciso ter vísceras, e para tê-las é preciso ter um corpo
E nesse corpo deve bater um músculo pulsante que irrigue a necessidade do ato
Para escrever é preciso ter necessidade
e esta por sua vez tem que pulsar e pulsar visceralmente
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sábado, 18 de junho de 2011
Para Carlos, com amor e falhas.
“Tudo desde sempre. Nunca outra coisa. Nunca ter tentado. Nunca ter falhado. Não importa. Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.” Samuel Beckett
Ficava a um canto observando os irmãos, eram tantos. Ele apenas mais um. Olhava todos sempre na esperança de dizer adeus. Um dia seria como todo mundo, só não queria ser igual aquele mundo em que caíra de pára-quedas. Descera ali porque ainda não sabia voar. Tinha esperança nas outras irmãs, filhas de outro tempo. Apesar de serem só metade era nelas que depositava o anseio de um dia ser inteiro. Nunca chegaram... nunca voltaram para lhe darem suas asas.
Carlinhos... pequeno grandemente. O apelido dado em casa, não o ‘inho’ o outro, encobria sua verdade, era todo misturado. Tão diferente dos outros, a mãe pensava. A mãe era franzina, pouca, mas era real. Os pensamentos do pai é que nunca o alcançaram, se a mente paterna dava conta de sua existência não sabia. Não sabia nem mesmo se ele, o pai, era como a mãe, real. O que sabia era que aquela figura pictórica estava sempre presa à jogatina da vida que levava, longe da prole que pôs no mundo. Não dava conta da própria vida e pôs no mundo sete filhos... sete! Número cabalístico.
Ele Carlinhos era o filho número... não sabia dizer a ordem que lhe caberia naquela vivência minguada. Nunca se preocupou de contar por que queria mesmo era linguagem, falava pouco.
- O apelido é por causa do cabelo, é engraçado, diziam.
Era nada! Não queriam lhe dizer a verdade, nunca fora dali. Era diferente de todos os que eram iguais. Gata borralheira versão ninguém sabe o quê, obrigado a varrer, lavar... eram pobres pobres,pobres,de marré, marré, marré. As brincadeiras ficavam para aquela gente mais abastada que morava no mundo fora daquela casa velha e pequena demais para comportar ele só. Os outros cabiam na medida, ele não.
Um dia fez para si asas de sonhos, e partiu daquele lugar do qual nunca fora. Caíra umas tantas vezes... era tão lindo o mundo! Cruel e lindo. Das falhas criava novas asas. Criou caminho próprio, linguagem própria. Falava agora outras línguas vivia outros mundos, tinha uma parte de si que era só linguagem. A alma era de papel.
Cresceu em vôos com coração de pássaro e conquistou o céu, sem saber que quando se é pássaro errante mais dia, menos dia, tem-se que voltar para entender que é preciso falhar em outros vôos.
Vai entender
Ela em uma tarde morna e calma olhou no fundo dos olhos dele e disse:
- Decifra-me ou te devoro...
Encontram-se casados há mais de trinta anos, ela com indigestão e ele sem ainda saber resolver mistérios.
- Decifra-me ou te devoro...
Encontram-se casados há mais de trinta anos, ela com indigestão e ele sem ainda saber resolver mistérios.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Não te esqueço, Joana
Os armários abertos muito mais que objetos, guardam saudades. Minhas lembranças evaporam como os cristais de naftalina. Elas não me chegam por um desejo racional, mas por palavras inauditas guardadas nos armários da memória.
E no silêncio da noite me vejo envolvida nessa aura mnemônica, a presença que tudo toma; me vejo na incapacidade de lembrar e na impossibilidade de esquecer. Tudo vem de “um não sei onde”: o balanço pendurado na árvore, que era só minha; o velho guarda-roupa que escondia minha alma; os soldadinhos aprisionados em caixas de fósforos, a casa. A sensação de ser erguida no colo como quem ascende ao céu e pode catar estrelas. Histórias-mentiras que viravam verdades e as verdades que preferi tratar sempre como mentiras. As palavras que não expressavam nada, mas diziam tudo nos livros que não podia ler. A partida. O refúgio. A volta.
Em páginas escritas li tudo sobre mim, sobre outros, sobre tudo e nada. Os armários que prendiam minha alma à velha casa abriram suas portas. Liberta, a alma procura repouso e repousa na palavra em que me salvei de mim mesma muitas vezes. Ensinaram-me a ler o mundo antes de tudo. Quantos mundos já li! As histórias da bisa nordestina, que não sabia ler. Olhos amarelos feitos pra ler mundos de lobisomens, de almas penadas, de feitiços... Os dedos grossos desenhavam apenas um único símbolo. Um dia, das páginas de um livro, saltou-me da memória acompanhado da frase que resumia Joana, a guerreira, que me ensinou a esquecer para lembrar: “Existe é homem humano. Travessia.”
Eu leio Drummond
Arrogância
Tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra.
Que pedra porra nenhuma, chutei!
Puta que pariuuuuuuu....
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