sábado, 18 de junho de 2011

Para Carlos, com amor e falhas.

“Tudo desde sempre. Nunca outra coisa. Nunca ter tentado. Nunca ter falhado. Não importa. Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.” Samuel Beckett


Ficava a um canto observando os irmãos, eram tantos.  Ele apenas mais um. Olhava todos sempre na esperança de dizer adeus. Um dia seria como todo mundo, só não queria ser igual aquele mundo em que caíra de pára-quedas. Descera ali porque ainda não sabia voar. Tinha esperança nas outras irmãs, filhas de outro tempo. Apesar de serem só metade era nelas que depositava o anseio de um dia ser inteiro. Nunca chegaram... nunca voltaram para lhe darem suas asas.
Carlinhos... pequeno grandemente. O apelido dado em casa, não o ‘inho’ o outro, encobria sua verdade, era todo misturado. Tão diferente dos outros, a mãe pensava. A mãe era franzina, pouca, mas era real. Os pensamentos do pai é que nunca o alcançaram, se a mente paterna dava conta de sua existência não sabia. Não sabia nem mesmo se ele, o pai, era como a mãe, real. O que sabia era que aquela figura pictórica estava sempre presa à jogatina da vida que levava, longe da prole que pôs no mundo. Não dava conta da própria vida e pôs no mundo sete filhos... sete! Número cabalístico.
Ele Carlinhos era o filho número... não sabia dizer a ordem que lhe caberia naquela vivência minguada. Nunca se preocupou de contar por que queria mesmo era linguagem, falava pouco.
- O apelido é por causa do cabelo, é engraçado, diziam.
Era nada! Não queriam lhe dizer a verdade, nunca fora dali. Era diferente de todos os que eram iguais. Gata borralheira versão ninguém sabe o quê, obrigado a varrer, lavar... eram pobres pobres,pobres,de marré, marré, marré. As brincadeiras ficavam para aquela gente mais abastada que morava no mundo fora daquela casa velha e pequena demais para comportar ele só. Os outros cabiam na medida, ele não.
Um dia fez para si asas de sonhos, e partiu daquele lugar do qual nunca fora. Caíra umas tantas vezes... era tão lindo o mundo! Cruel e lindo. Das falhas criava novas asas. Criou caminho próprio, linguagem própria. Falava agora outras línguas vivia outros mundos, tinha uma parte de si que era só linguagem. A alma era de papel.
Cresceu em vôos com coração de pássaro e conquistou o céu, sem saber que quando se é pássaro errante mais dia, menos dia, tem-se que voltar para entender que é preciso falhar em outros vôos.

Vai entender

Ela em uma tarde morna e calma olhou no fundo dos olhos dele e disse:
- Decifra-me ou te devoro...
Encontram-se casados há mais de trinta anos, ela com indigestão e ele sem ainda saber resolver mistérios.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Não te esqueço, Joana

Os armários abertos muito mais que objetos, guardam saudades. Minhas lembranças evaporam como os cristais de naftalina. Elas não me chegam por um desejo racional, mas por palavras inauditas guardadas nos armários da memória.
E no silêncio da noite me vejo envolvida nessa aura mnemônica, a presença que tudo toma; me vejo na incapacidade de lembrar e na impossibilidade de esquecer. Tudo vem de “um não sei onde”: o balanço pendurado na árvore, que era só minha; o velho guarda-roupa que escondia minha alma; os soldadinhos aprisionados em caixas de fósforos, a casa. A sensação de ser erguida no colo como quem ascende ao céu e pode catar estrelas. Histórias-mentiras que viravam verdades e as verdades que preferi tratar sempre como mentiras. As palavras que não expressavam nada, mas diziam tudo nos livros que não podia ler. A partida. O refúgio. A volta.
Em páginas escritas li tudo sobre mim, sobre outros, sobre tudo e nada. Os armários que prendiam minha alma à velha casa abriram suas portas.  Liberta, a alma procura repouso e repousa na palavra em que me salvei de mim mesma muitas vezes. Ensinaram-me a ler o mundo antes de tudo. Quantos mundos já li! As histórias da bisa nordestina, que não sabia ler. Olhos amarelos feitos pra ler  mundos de lobisomens, de almas penadas, de feitiços... Os dedos grossos desenhavam apenas um único símbolo. Um dia, das páginas de um livro, saltou-me da memória acompanhado da frase que resumia Joana, a guerreira, que me ensinou a esquecer para lembrar: “Existe é homem humano. Travessia.” 

Eu leio Drummond

Arrogância
Tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra.
Que pedra porra nenhuma, chutei!
Puta que pariuuuuuuu....

Parnasianos não sabem transar

Deus eu protesto, morte à teoria! Mas que ela ressuscite ao terceiro dia.



Entre a pena e a virgem de celulose Aldo se afligia. Trabalho hercúleo, pensava. Enquanto a pena desvirginava a ebúrnea virgem, quem gemeu foi o poeta: Arre! Esse negócio de escrever só pode ser coisa do Cão! Nesse momento o tinhoso que, curioso, estava por trás do escritor observando o perrengue disse:
- Minha não que até eu tô admirado!

Como preparar uma guerra

Guardava todos numa caixa vazia roubada e desprovida de função. Caixa de fósforos vazia serve pra quê? 
Debaixo da árvore de castanholas, que não faziam música, esperava os soldadinhos. 
Um a um guardados com todo cuidado, em pouco tempo teria um exército. 
Seus planos: soltar todas as asas em preto e branco voar e virar poeta. Poeta voa, pensava.

Morrer é dizer

Quando você me falta e tudo me resta o que sobra?
Quando me falta a letra, o vocábulo, a sintaxe, o que fica?
Quando a necessidade do dizer o teu nome chegar e encontrar o vazio, o indizível, o que acontecerá?

Um acontecimento apocalíptico se dará no rompimento entre o eu-sujeito e o tu-objeto e que nenhum código, por mais livre ou aprisionado que seja, dará conta de expressar. Mil bombas atômicas explodirão no silêncio do meu ser. Ser não será mais verbo, nem sujeito, nem objeto. 
Será a indefinição do que não sou
                                   neste momento, desejarei não-ser.
Só o teu nome restará no cemitério das palavras. 
                                    Suspenso no ar.
E minha voz mesmo morta
                  em meio à noite vazia 
                                     procurará dizer-te.

Querer não é poder

Querido Deus me dê a graça de um dia escrever algo que preste. Enquanto isso eu tento...




Em mente em cores em dores amores com mantras
                         palavras 
                                       cimento digerido 
como fibras para tecer o dia
                                       matéria inútil a poesia

O começo

Viu Deus que a luz era boa; 


e fez separação entre a luz e as trevas.
  
 E Deus chamou à luz dia, e às trevas noite. E foi a tarde e a 

manhã, 
  
    o dia primeiro.

   
Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; 


à imagem de Deus o criou;
  
homem e mulher os criou.

Gn 1:4;5;27



Na manhã em que a dúvida nasceu

A tarde findou lilás
E trouxe a noite em que teu olhar cruzou o meu

Dá-me a graça oh! Deus

Amor amado armado amarelo azul amém
          Matéria  mitose Mozart
                     Outro órbita ornado horrível orla
                                Refém refaz remar rezar ruir
        Que na hora das trindades ao proferir o amém na promessa de te amar
               tu percorra a orla do meu corpo fazendo ruir meu desejo

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Não sei pra quê esquecer se um dia vou lembrar... isso não combina!

Querido Deus quanto tempo... mas é assim mesmo, eu levo um tempão pra me apegar as coisas. Falo do blog não de você. Hoje gostaria de falar, na verdade opinar, sobre algo que você criou e acho extremamente problemático: a memória. Pois bem, é tão confuso isso... tô até pesquisando sobre o assunto e até agora não cheguei a porra de conclusão nenhuma! Então minha principal indagação é: pra quê esquecer se eu estou condenada a lembrar... e olha que eu esqueço quase tudo,  sacolas, aquele amor louco e como dizem meus sábios alunos #not, e etc. Por hoje deixo pra você esse pensamentozinho que formulei a respeito do assunto. Hein? Não falei de memória nele? Ué! Mas tá implícito!! Até porque não se faça de sonso desentendido pois você mais do ninguém nestas galáxias sabe muito bem de quem estou falando, hun!

a imagem veio daqui
Eis:

Na noite em que te perdi atravessei a cortina de névoa


em que vagava minha alma


E tua lembrança passou a ser esquecimento


Até que chegou a manhã clara e sóbria e a alma minha 


quis achar-se perdida