Os armários abertos muito mais que objetos, guardam saudades. Minhas lembranças evaporam como os cristais de naftalina. Elas não me chegam por um desejo racional, mas por palavras inauditas guardadas nos armários da memória.
E no silêncio da noite me vejo envolvida nessa aura mnemônica, a presença que tudo toma; me vejo na incapacidade de lembrar e na impossibilidade de esquecer. Tudo vem de “um não sei onde”: o balanço pendurado na árvore, que era só minha; o velho guarda-roupa que escondia minha alma; os soldadinhos aprisionados em caixas de fósforos, a casa. A sensação de ser erguida no colo como quem ascende ao céu e pode catar estrelas. Histórias-mentiras que viravam verdades e as verdades que preferi tratar sempre como mentiras. As palavras que não expressavam nada, mas diziam tudo nos livros que não podia ler. A partida. O refúgio. A volta.
Em páginas escritas li tudo sobre mim, sobre outros, sobre tudo e nada. Os armários que prendiam minha alma à velha casa abriram suas portas. Liberta, a alma procura repouso e repousa na palavra em que me salvei de mim mesma muitas vezes. Ensinaram-me a ler o mundo antes de tudo. Quantos mundos já li! As histórias da bisa nordestina, que não sabia ler. Olhos amarelos feitos pra ler mundos de lobisomens, de almas penadas, de feitiços... Os dedos grossos desenhavam apenas um único símbolo. Um dia, das páginas de um livro, saltou-me da memória acompanhado da frase que resumia Joana, a guerreira, que me ensinou a esquecer para lembrar: “Existe é homem humano. Travessia.”

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